O custo de se negligenciar o risco jurídico de uma “simples” resposta a ofícios da Anvisa ou MAPA

O custo de se negligenciar o risco jurídico de uma “simples” resposta a ofícios da Anvisa ou MAPA

Empresas do setor regulado – no caso, pela Anvisa e pelo MAPA – recebem constantemente ofícios expedidos por esses órgãos com requerimentos de informações, de esclarecimentos, ou de documentos. Muitas empresas encaram esse fato como uma simples formalidade administrativa, especialmente porque, na maioria das vezes, o teor dos ofícios parece simplório, de fácil ou rápida resposta.

O risco está exatamente aí. Ofícios dessa natureza, na verdade, representam o efetivo início de um diálogo técnico-jurídico com grande potencial de determinar consequências relevantes à operação de empresas e/ou a seus direitos. E temos observado, com preocupação, um movimento crescente de simplificação dessa etapa, justamente ao mesmo tempo em que aumentam os riscos e as consequências (reputacionais e econômicas) decorrentes de respostas meramente formais ou que não foram capazes de absorver os riscos indiretos associados aos requerimentos formulados nos ofícios.

Muitas vezes, esses ofícios estão atrelados a processos administrativos de investigação em andamento, instaurados para apurar fatos derivados de denúncias ou colhidos pelo monitoramento da própria atividade fiscalizatória da Anvisa e do MAPA. É justamente nesta fase embrionária que as bases e os entendimentos do caso costumam já ser definidos pela autoridade.

Em outras circunstâncias, porém, nem mesmo um processo administrativo de instigação foi instaurado previamente, de modo que a resposta que será dada pela empresa ao ofício recebido é que determinará o avanço, ou não, das investigações, bem como determinará se o caso poderá se desdobrar em uma série de outros processos de diferentes naturezas (administrativo, judicial, cível, criminal, por exemplo).

Há, ainda, um terceiro cenário: aquele em que a resposta dada pela empresa a um ofício inicial passa a vincular (e/ou limitar) toda a sua futura linha argumentativa. O que for afirmado nesse primeiro momento tende a delimitar — e, muitas vezes, restringir — as teses e defesas possíveis em qualquer processo ou procedimento que venha a decorrer daquele ofício, inclusive fora da competência do órgão regulador, como em ações judiciais ou em procedimentos instaurados pelo Ministério Público. Por isso, é fundamental compreender que o conteúdo de uma resposta a um ofício possui, na prática, uma carga jurídica muito mais relevante do que aparenta à primeira vista (mesmo naqueles ofícios que aparentam ter apenas questões técnico-regulatórias).

Em muitos casos, os ofícios são expedidos para se obter informações ou documentação para, se necessário, iniciar processo administrativo sancionador. Responder de forma adequada e estratégica aos esclarecimentos solicitados na fase investigativa possibilita até mesmo o arquivamento imediato do caso. Contudo, o risco da inércia ou de uma resposta inadequada é ainda mais grave em órgãos reguladores: no caso da Anvisa, que atua sob o amparo do princípio da precaução, a ausência ou insuficiência de informações precisas pode levar a Agência a agir preventivamente para a proteção da saúde pública, adotando medidas severas, preventivas e cautelares – que, posteriormente, tendem a impactar significativamente outros eventuais desdobramentos (como aqueles perante o Ministério Público ou Autoridades Policiais).

Para além das consequências jurídicas, a desídia em responder “simples” ofícios pode implicar prejuízo econômico. Não raro, os procedimentos administrativos implicam alguma contingência, notadamente em processos sancionadores. Além disso, tais desdobramentos podem extrapolar o resultado atual da empresa, para impactar eventual due diligence em processos de M&A, por exemplo.

A resposta àquilo que parece ser um “simples” ofício de um órgão regulador deve, portanto, ser vista como um ativo jurídico estratégico pela empresa. É, sobretudo, uma oportunidade de defesa preventiva da empresa: o momento em que a companhia pode esclarecer fatos, apresentar seu posicionamento técnico e jurídico e, principalmente, evitar que interpretações equivocadas se consolidem nas instâncias regulatórias ou em eventuais desdobramentos externos.

Tratar esses ofícios com rigor, profundidade e visão estratégica reduz riscos, fortalece a segurança jurídica da operação e preserva a integridade das atividades empresariais em um ambiente regulatório cada vez mais complexo e exigente, evitando que o tema seja escalado de forma desproporcional à realidade, especialmente em setores nos quais a confiança e a reputação são o principal ativo.

 

Este material tem caráter meramente informativo e não deve ser utilizado isoladamente para a tomada de decisões. Aconselhamento legal específico poderá ser prestado por um dos nossos advogados. Direitos autorais são reservados ao KESTENER VIEIRA TORRONTEGUY SPEGIORIN ADVOGADOS.

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